Cada um no seu quadrado. Ou seria cada um no seu círculo?

6 11 2009

Por Caio Amorim

Charge+CabralHitler

“Comunidade que vive à vontade com mais liberdade tem mais pra colher. Pois alguns caminhos pra felicidade são paz, cultura e lazer. Comunidade que vive acuada, tomando porrada de todos os lados, fica mais longe da tal esperança, os menores vão crescendo todo revoltados. Não se combate crime organizado mandando blindado pra beco e viela, pois só vai gerar mais ira para aqueles que moram dentro da favela. Sou favelado e exijo respeito, são só meus direitos que eu peço aqui. Pé na porta sem mandado tem que ser condenado, não pode existir.(…) Mãe sem emprego, filho sem escola é o ciclo que rola naquele lugar. São milhares de história que no fim são as mesmas, podem reparar. Sinceramente, eu não tenho a saída de como devia tal ciclo parar. (…)o futuro da favela depende do fruto que tu for plantar. Tá tudo errado, errado e difícil explicar, mas do jeito que a coisa está indo já passou da hora do bicho pegar. (…) Tem gente plantando o mal, querendo colher o bem.” Tá tudo errado, por Mc Júnior e Leonardo.


O funk de Mc Junior e Leonardo (no vídeo acima Mc Leonardo canta a capela na audiência pública pelo funk do dia 26 de agosto na ALERJ) é a mais perfeita explicação para compreendermos as causas dos episódios de violência ocorridos no Rio de Janeiro. A música serviria para explicar não só os episódios violentos desencadeados pela queda do helicóptero da PM no morro dos Macacos , como tudo o que está errado no círculo vicioso da segurança pública desde meados da década de 80. (“Desde a queda do helicóptero da PM, em 19 dias, houve mais de 40 mortes em um período de intensificação da rotina de operações policiais realizadas em favelas” – clique aqui e confira reportagem de Paula Máiran sobre manifestação dos movimentos sociais contra o “revide” da segurança pública). Círculo que, acelerado nos últimos anos, vem atingindo seu auge no governo Cabral no tocante ao desrepeito do cidadão favelado, tratado como inimigo público pelo secretário estadual de segurança pública, José Mariano Beltrame. Entretanto, pouquíssimas pessoas conhecem essa música, principalmente se comparado com o número de indivíduos influenciados pela mídia de direita.

charge+PMO problema da segurança pública de extermínio ao povo pobre, negro e favelado está intimamente ligado à opinião pública e quais são os valores transmitidos por toda forma de mídia hegemônica, seja no jornalismo, publicidade e cinema. A maioria esmagadora da classe média e alta – que é ouvida e respeitada pelo poder público no Brasil – aprova com louvor a repressão às favelas como se fosse um território inimigo. A disputa por uma política de segurança pública que trate todos de maneira equivalente deve ser feita principalemente pela construção de uma mídia alternativa. Enquanto só tivermos Balanços gerais, RjTv’s, Meia-horas e Willians Wacks influenciando a opinião das pessoas, dificilmente teremos poder de pressão para mudar não só o que de há errado na política de segurança pública, como tudo que é injusto nesse mundo.

Mc Junior e Leonardo, no funk “Tá tudo errado” abordam o círculo vicioso alimentado pelas elites contra o povo. Ao mesmo tempo em que escrevemos este texto, uma propaganda do Bradesco passa na televisão. O narrador fala de pessoas que, quando se movimentam pra fazer seu sonho acontecer, ativam uma cadeia de outros sonhos em um poderoso elo invisível. O vídeo conta a história de um dono de tijolaria que, ao realizar seu sonho de montar uma empresa (e enriquecer), realiza o sonho da casa própria de um casal de classe média baixa que conseguiu a habitação pelo financiamento do Bradesco. Algo como um lindo círculo virtuoso, cujos elos foram construídos pelo banco, que realiza um mundo melhor a cada dia. Poético né? Os lucros milionários dos acionistas do Bradesco, sabiamente, são ocultados.

charge+BOPEEnquanto tivermos em todas as formas de comunicação (jornalismo, cinema, publicidade, música…) mensagens ludibriosas, como a da propaganda do Bradesco, ou que fomentem preconceitos contra pobres, negros, favelados, homosexuais, mulheres, será muito difícil convencer as pessoas de que só há ricos porque há pobres e de que todas as injustiças do mundo devem ser combatidas. Enquanto o herói do filme for o capitão Nascimento, o policial que der o tiro de misericórdia em criminosos ou inocentes será aclamado pela opinião pública. E o círculo vicioso alimentados pelas elites para os pobres continuará esbarrando no círculo virtuoso – supostamente blindado – das elites.





Movimentos sociais interrogam Segurança Pública sobre mortes em favelas

5 11 2009

Entidades querem informações sobre mais de 40 mortes ocorridas em comunidades desde a queda de um helicóptero da PM, em outubro

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foto por Gustavo Mehl

Por Paula Máiran

Dezenas de cruzes com interrogações plantadas em pequenos vasos de terra foram instaladas ao meio-dia desta quinta-feira (5/11) na Central do Brasil, bem em frente à entrada da Secretaria de Segurança Pública estadual. O ato simbólico antecedeu a entrega de um manifesto assinado por 68 organizações e movimentos de Direitos Humanos que foi entregue ao secretário de Segurança Pública interino, o subsecretário de Inteligência Rivaldo Barbosa, com a cobrança da prestação oficial de contas sobre a quantidade e a identidade dos mortos nas operações policiais em favelas desde o sábado 17/10. Nessa data houve a explosão de um helicóptero da Polícia Militar no Morro dos Macacos, na Tijuca, Zona Norte, com a morte de três tripulantes, durante intervenção policial em disputa entre quadrilhas do tráfico de drogas.

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foto por Jackson Anastácio

Desde então, em 19 dias, houve mais de 40 mortes em um período de intensificação da rotina de operações policiais realizadas em favelas. Mas o Estado ainda não informou à população sobre a quantidade exata de vítimas e a identidade dos mortos.

“Que política de segurança é essa que entra nas comunidades, produz tantas mortes e não esclarece quem são ou quantas são as vítimas?”, questionou a advogada Fernanda Vieira, da Mariana Criola, uma das organizações de Direitos Humanos envolvidas no ato, que reuniu cerca de 100 pessoas. “Cobrar explicações é um direito da sociedade e apresentar respostas um dever do Estado”, disse ainda, diante das contradições entre os números oficiais apresentados até agora e os divulgados pela imprensa.

O manifesto entregue ao secretário interino, porque o titular está em Brasília, traduz a posição dos movimentos sociais contra a política de segurança pública pautada pela criminalização da pobreza e o extermínio da população das favelas. O subsecretário Rivaldo assumiu o compromisso de providenciar a resposta às questões propostas pelos movimentos sociais. “Nosso manifesto é contra essa lógica de segurança pública que não tem apresentado efeito prático, já que a violência só tem aumentado”, explicou
Rafael Dias, pesquisador da Justiça Global, uma das entidades organizadoras do ato.

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foto por Jackson Anastácio

“É bom para o Rio de Janeiro que a sociedade civil se organize para o debate sobre a segurança pública. Uma sociedade segura não é a que tem muita polícia, muitas mortes e muitos conflitos. O Rio de Janeiro precisa de uma alternativa e é possível termos uma outra polícia e uma outra política de segurança. O governo não pode temer esse diálogo com a sociedade civil”, disse o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), cujo mandato apoiou o ato-manifesto.





Manifestação pública contra o “revide” da segurança pública

30 10 2009

Próxima quinta-feira, dia 5, é dia de ir à luta.

O cartaz tem as informações. Compareça!

cartaz





Manifesto público contra o “revide” da Segurança Pública do Rio de Janeiro

27 10 2009

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As operações policiais que estão sendo realizadas pela polícia do Rio de Janeiro desde o dia 17 de outubro, após a queda de um helicóptero no morro São João, no Engenho Novo, próximo ao Morro dos Macacos, já têm um saldo de mais de 40 pessoas mortas e um número desconhecido de feridos. É o resultado evidente de uma política de segurança pública baseada no extermínio e na criminalização da pobreza, que desconsidera a vida humana e coloca os agentes policiais em situação de extrema vulnerabilidade.

A lamentável queda do helicóptero e a morte dos três policiais não pode servir como mais um pretexto para ações que, na prática, significam apenas mais violência para os moradores das comunidades atingidas e mais exposição à vida dos policiais. Ao se utilizar do terror causado pelo episódio para legitimar ações que violam a lei e os direitos humanos, o Estado se vale de um sentimento de vingança inaceitável. Em outras palavras, aproveitando-se da sensação de medo generalizada, o governo de Sérgio Cabral oculta mais facilmente as arbitrariedades e violações perpetradas nas favelas, como o fechamento do comércio, de postos de saúde e de escolas e creches – além, é claro, das pessoas feridas e das dezenas de mortos.

A sociedade carioca não pode mais aceitar uma política de segurança pautada pelo processo de criminalização da pobreza e de desrespeito aos direitos humanos. Definitivamente, não é possível jogar com as vidas como faz o Estado contra os trabalhadores – em especial os pobres, os negros e os moradores de favela – utilizando-se como desculpa a chamada “guerra contra as drogas”.

As organizações da sociedade civil, movimentos sociais, professores da rede pública e outros preocupados com a situação que há cerca de uma semana mobiliza o Rio de Janeiro se uniram para exigir o fim das incursões policiais baseadas na lógica do extermínio e a divulgação na íntegra da identidade dos mortos em conseqüência dessas ações. Até o fim da semana, o coletivo fará visitas às comunidades atingidas e se reunirá com moradores para ouvir relatos relacionados à violência dos últimos dias. Na quinta-feira, dia 5 de novembro, haverá um ato em frente à Secretaria de Segurança Pública, no Centro do Rio.

Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2009

ASSINE ESSE MANIFESTO EM -- http://www.ipetitions.com/petition/manifestosegurancapublica.

Assinam esse manifesto:

Justiça Global

CRP – Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro

SEPE – Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação

DDH – Defensores de Direitos Humanos

Grupo Tortura Nunca Mais

CDDH – Centro de defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis

Central de Movimentos Populares

Projeto Legal

Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência

Centro de Assessoria Jurídica Popular Mariana Criola

PACS – Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul

MNLM – Movimento Nacional de Luta pela Moradia

Mandato do Deputado Estadual Marcelo Freixo

Mandato do Deputado Federal Chico Alencar

Mandato do Vereador Eliomar Coelho

DPQ – Movimento Direito Pra Quem?

Fazendo Média

NPC – Núcleo Piratininga de Comunicação

Agência Pulsar Brasil

Revista Vírus Planetário

ENECOS – Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social

AMARC – Associação Mundial das Rádios Comunitárias

APN – Agência Petroleira de Notícias

O Cidadão – Jornal da Maré

ANF – Agência de Notícias das Favelas

Coletivo Lutarmada Hip-hop

Conlutas

Intersindical

Círculo Palmarino

Fórum 20 de Novembro

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Manifesto público

Contra o “revide” da Segurança Pública do Rio de Janeiro








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