Ataque a helicóptero da PM no Rio de Janeiro “legitima” o extermínio

24 10 2009

Por Renato Godoy de Toledo do Brasil de Fato

Violência em morro carioca desencadeia repressão, com execuções e invasão de moradias

helicopteropmrestos173A disputa por pontos de tráfico de drogas no Rio de Janeiro (RJ) recrudesceu nos últimos dias e contou com acontecimentos inéditos, como o abatimento de um helicóptero da polícia por traficantes, próximo ao morro São João, na zona norte da capital fluminense, no dia 17. Três policiais militares que estavam na aeronave morreram e outros dois ficaram feridos, mas já tiveram alta.

O ocorrido despertou a atenção da mídia internacional, que abordou a questão da segurança nos Jogos Olímpicos de 2016. E, como já é de praxe, desencadeou um processo repressivo por parte das forças policiais. Na guerra entre traficantes e policiais, cerca de 24 pessoas morreram, entre policiais, traficantes e civis – o governo admitiu a morte de, ao menos, três inocentes. O efeito midiático da queda de um helicóptero parece ter dado um aval à Polícia Militar do Estado para praticar extermínio e outros abusos de poder, como a invasão de casas sem mandado.

A violência no Rio de Janeiro deixou o âmbito municipal e ganhou contornos de assunto da política nacional. O ministro da Justiça, Tarso Genro, ofereceu tropas federais ao governador fluminense Sérgio Cabral, que recusou. Mas aceitou um repasse de R$ 100 milhões da Secretaria Nacional de Segurança Pública para reforçar a situação.

O próprio secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, admitiu que houve execuções após os acontecimentos, inclusive por parte de policiais. Apesar de ter admitido a morte de “inocentes”, as atribuiu ao tráfico de drogas.

Entre os policiais que ocupavam o helicóptero abatido, estava o major João Jaques Busnello, que em setembro executou um rapaz que fazia uma mulher de refém, em Vila Isabel, também na zona norte do Rio. Após a ação, o policial afirmou que optou por “neutralizar” o criminoso e que guardaria a cápsula como lembrança de um “tiro certeiro”.

Ineficiência

21_macacosPara João Tancredo, presidente do Instituto de Desenvolvimento de Direitos Humanos (IDDH), a classe média carioca, estimulada pela imprensa, nutre um sentimento de apoio ao extermínio dos pobres, sem ter conhecimento da ineficiência dessa política.

“A classe média, mal informada e desesperada, começa a acreditar nessa política e no extermínio como forma de diminuir a violência. Mas não sabem que isso não resolve nada. A cada 20 mortos, existem 100 para entrar no lugar. Isso porque não há mercado de trabalho”, explica Tancredo.

Ainda de acordo com ele, o tráfico é movimentado por um número pequeno de funcionários e possui um extenso exército de reserva. Com a morte prematura de seus membros, a reposição é feita imediatamente.

Dados do Complexo do Alemão – região com histórico de ocupações militares e desfechos violentos – comprovam a afirmação de Tancredo. Com cerca de 200 mil habitantes, apenas 0,05% da população é ligada a tais atividades. “Não é preciso muito mais do que isso para movimentar o tráfico. E há um imensa reserva de mão-de-obra esperando para entrar”, comenta.

Apenas siglas

A imprensa noticiou a violência na zona norte do Rio como, inicialmente, uma disputa por pontos de tráfico realizada entre duas facções do crime organizado, o Comando Vermelho (CV) e a Amigos dos Amigos (ADA). Segundo essa versão, chefes do tráfico do morro São João invadiram o vizinho Morro dos Macacos. No entanto, é uma análise recorrente, entre especialistas em criminalidade e direitos humanos, que tais siglas têm mais relevância no plano simbólico e midiático do que no dia-a-dia do crime. Tal análise dá conta de que os criminosos se intitulam como membros de determinada organização, mas não têm uma relação orgânica com traficantes em nível municipal, menos ainda regional.

latuff-seg“Esse argumento tem toda a razão, [a existência dessas siglas] é mais marketing do que algo concreto. Se fosse organizado como se fala, o crime já teria tomado a acidade. Não há nenhuma organização, não há isso na prática. Fala-se muito em ‘aquele morro é do CV, aquele é de não sei quem’. O que existe é um gerente em cada morro que controla o tráfico. Se essas organizações existissem o crime teria controlado a cidade, porque mão-de-obra tem e exército de reserva eles têm de sobra”, analisa João Tancredo.

Pretexto
Com a derrubada do helicóptero da PM, a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro iniciou uma operação preventiva na cidade, sitiando outros sete morros da zona norte. Para João Tancredo, o Estado pode ter feito vistas grossas ao confronto entre traficantes para poder retomar o controle em áreas da cidade. O governo do Estado admitiu que sabia da intenção de alguns traficantes de tomar o controle do morro São João.

“Existe a possibilidade de que o Estado tenha deixado isso acontecer para depois tomar essas medidas de execução e de invasão da casa das pessoas sem mandado. Primeiro, deixam instaurar o caos, para depois controlar as favelas”, afirma.

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