Em nome de qual lei?

19 06 2010

A Família Santa Clara é um projeto, situado em Vargem Grande, que acolhe, educa e reinsere crianças e jovens na sociedade. Com 23 anos de existência a Família Santa Clara é “reconhecida internacionalmente e já foi premiada pela UNESCO, provando sua excelência não apenas no destino das crianças que por lá passaram como também pelo empenho de seus responsáveis em tentar reparar os danos, tantas vezes irreversíveis nestas crianças” (Junia de Vilhena). No dia 25 de maio de 2010 quatorze crianças que habitam a Família Santa Clara tiveram que comparecer à 1 Vara da Infância e Adolescência para supostamente realizarem uma nova avaliação psicossocial. Ao chegarem lá foram encaminhados a abrigos femininos e masculinos, havendo assim separação de irmãos. A violência contra essas crianças – que está sendo legitimada por alguns profissionais da saúde e do direito – é tão absurda que não podemos nos calar! Segue abaixo a carta de denúncia elaborada pela psicanalista e professora da PUC-RJ, Junia de Vilhena.

Em nome de qual lei?

Estou indignada e perplexa. Escrevo como psicanalista, mãe e cidadã que tem, ainda a esperança de que uma ação justa prevaleça. Escrevo também como alguém que ao longo de 23 anos, metade deles junto com a PUC-Rio, acompanhou, colaborou e dividiu o trabalho desenvolvido pela Família Santa Clara que acolhe, educa e reinsere crianças – até hoje mais de 1.500. È nesta família que grande parte delas constrói sua primeira relação de confiança.

Mas parece que este lar – que abriga tanta diversidade, educação e amor – incomoda. Não se encaixa no modelo de “abrigo” e nem da tradicional “família” que só existe na cabeça de burocratas insensíveis ou profissionais inexperientes. No último dia 25 de maio, 14 crianças foram violentamente retiradas de lá, sem nenhum aviso, pela 1ª. Vara da Infância e Adolescência. Utilizando-se de mentiras e com o aval de psicólogas, assistentes sociais e de uma juíza, as crianças foram levadas sem qualquer preparação psicológica, em meio ao semestre letivo, sem poder levar nenhum de seus pertences.

Como se retira do ambiente familiar crianças que estão tendo sua primeira experiência de acolhimento e que ainda estão no processo de aprendizagem no estabelecimento de vínculos confiáveis? Como é possível que profissionais da área da saúde e do direito sejam coniventes com mentiras? Qual a ética que norteia a prática destes profissionais?

Custamos a crer que tais atitudes possam ter o aval da lei. Por esta razão, buscamos o auxílio do Ministério Público. Crianças chorando e pedindo fotografias da psicóloga da PUC para que não fossem esquecidas. Gritos com perguntas se nunca mais seriam vistas. Irmãos separados. Uma cena cujo horror nos faltam palavras para descrever, mas que, lamentavelmente, nos evocam cenas já vistas.

Em 2 de junho, em liminar onde reconhecia o absurdo da situação, o dano causado às crianças e a competência técnica da avaliação feita pela equipe técnica da PUC-Rio, o Desembargador Eduardo Gusmão Alves de Brito Neto decidiu que todas as crianças deveriam retornar á Família Santa Clara,pelo menos até o dia 15 de dezembro, prazo que julgou adequado para não interromper os estudos das crianças e para decidir cuidadosamente o destino de cada criança.

Tal decisão, contudo, não foi cumprida. Como sabemos os meandros da Lei no Brasil permitem todos os artifícios, recursos e delongas. Utilizando-se de tais artifícios, a juíza em pauta descumpriu a liminar, impedindo o retorno das crianças ao St. Clara. Neste ínterim o Desembargador reverteu sua própria decisão. O que terá havido?

As crianças encontram-se espalhadas, irmãos separados, por uma decisão que claramente tornou-se PESSOAL para a juíza em pauta. Curiosamente, esta é a mesma Vara que concedeu a guarda de uma criança à procuradora torturadora.

Em um país como o nosso, onde a infância está relegada ao abandono das ruas, custa-nos crer que um projeto tal qual a Família Santa Clara possa ter este destino. A casa que é aberta a todos que com eles querem dividir esta experiência, funciona como uma família, com todas as suas características e idiossincrasias. Reconhecida internacionalmente e premiada pela UNESCO, provou sua excelência não apenas no destino das crianças que por lá passaram como também pelo empenho de seus responsáveis em tentar reparar os danos, tantas vezes irreversíveis nestas crianças. E se as estatísticas falam alguma coisa, o índice de evasão escolar é de apenas 5%!

A Eliete Castro Rosa, foi concedido o troféu Mãe do Mundo, no Festival Mondial de Tilburg, na Holanda, onde sempre se homenageiam “mães da África” tendo sido ela a primeira homenageada da América do Sul, falando sobre o trabalho em diversas cidades da Holanda.

No momento, estamos tentando todos os recursos possíveis na justiça e denunciando, simultaneamente os seguintes atos:

-retirada das crianças de seu lar sem aviso prévio, utilizando-se de mentiras;

-retirada das crianças da escola, no meio do semestre letivo, com a afirmativa que só voltarão em 2011 em clara violação do ECA;

-separação de irmãos;

-interrupção de atendimento psicoterápico sem nenhum aviso prévio ou cuidado com as conseqüências;

-sonegação de informação, impedindo que qualquer apoio ou explicação seja dado às crianças em uma tentativa de minimizar os danos psicológicos causados.

Não se retira uma criança de sua casa desta forma. Não se promete coisas materiais em troca de aquiescência. Não se desqualifica o lugar que as recebeu com amor. Não se negocia com sonhos. Não se denigre aqueles que dedicaram uma vida a um projeto deste porte. Não se desrespeita profissionais que se dedicam a tornar a vida destas crianças menos sofridas. Enfim, não se usa a lei para causar danos desta ordem. A lei não foi feita para humilhar e degradar o outro. Esta não é a lei dos homens, é a lei da selva.

Junia de Vilhena é psicanalista, professora da PUC-Rio e Coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social – LIPIS da PUC-Rio





A importância do xerox na vida universitária

27 04 2010

Nós da Revista Vírus Planetário estamos ligados na discussão sobre a reforma da Lei do Direito autoral (9610/98). Essa é uma discussão que tem tudo a ver com acesso informação, conhecimento e cultura. Ano passado chegamos ao absurdo da possibilidade desse acesso ser restrito até na internet, quanto mais em livros e aritgos, inviáveis para a maioria dos estudantes pela lei do Direito Autoral. Abaixo está a discussão sobre a xerox (copiadoras) e a restrição do conhecimento mesmo na USP, a maior universidade PÚBLICA do país… Boa leitura!

Se é verdade que uma Universidade se faz com alunos e professores, também é verdade que todo estabelecimento de ensino possui hoje um Xerox. Grandes, pequenos, uns menos informatizados, outros mais. Fato é que a maioria esmagadora dos professores disponibiliza material em suas respectivas pastas e os estudantes, fotocopiam! Em grande escala.

Segundo estudo(disponível em http://www.gpopai.usp.br/relatoriolivros.pdf) do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai–USP), 1/3 da bibliografia básica obrigatória de 10 cursos da Universidade de São Paulo (USP) estão esgotados. Os dados mostram claramente que a compra dos livros utilizados na Universidade (em oposição à cópia reprográfica de capítulos) não está ao alcance dos estudantes.Em todos os cursos, para mais de 3/4 dos estudantes, os custos anuais para a compra de livros está muito próximo da totalidade da renda familiar mensal ou mesmo a ultrapassa.

Serão os lixos a única saída para os estudantes terem acesso ao conhecimento?

A realidade atual, de livros esgotados, bibliotecas com poucos (e às vezes nenhum) exemplares e condições sócio-econômicas não compatíveis com os gastos, faz com que os estudantes sejam impelidos a xerocar as obras. Entretanto, essa prática, apesar de difundida e fundamental para a vida acadêmica atual, não é tão tranquila quanto parece. Os Xerox vem sofrendo, desde 2004, uma intensiva fiscalização da ABDR(Associação Brasileira de Direitos Reprográficos) e muitos foram fechados. Em cinco estados brasileiros – São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Rio Grande do Sul – universidades e diretórios acadêmicos(que muitas vezes abrigam os Xerox em suas instalações) foram processados pela realização de fotocópias. Até agora, 18 instituições foram acionadas na Justiça. A atual Lei de Direitos Autorais (9610/98) permite a reprodução de “pequenos trechos” das obras, sem definir porcentagens. Para a ABDR, estariam liberadas no máximo três páginas.

Na ausência de interpretação clara do Judiciário, adicionada à insegurança jurídica causada pelo vago termo da Lei, bem como da necessidade urgente de alunos terem acesso a material para estudo, no final de 2005 a FGV baixou uma Resolução idêntica à já emitida pela USP e pela PUC e que interpreta o termo “pequenos trechos”. O Conselho Universitário da USP aprovou resolução para regulamentar a xerox de livros e de revistas científicas, segundo a norma, “serão liberadas as cópias de pequenos trechos dos livros para uso privado do copista [aluno], sem visar o lucro”. Na prática, está liberada a cópia de um capítulo de livro ou de um trabalho científico em revistas especializadas, disse o professor encarregado do parecer, Walter Colli. “A USP não quer cometer ilegalidade, mas também não quer impedir as formas clássicas de ensino”, disse.

As infinitas possibilidades de interpretação da lei prejudicam os estudantes, que não têm outra saída a não ser xerocar as obras para estudar. O que é pequeno trecho de um livro de Medicina? Ou de História? Ao mesmo tempo, o que é pequeno trecho de um poema? Uma linha?

A interpretação é subjetiva, e o que me parece central é compreender o acesso democrático ao conhecimento como fundamental para o processo educativo, dentro e fora dos ambientes educacionais. Os direitos autorais devem ser respeitados, sim.Como expressos na Constituição Federal e na Declaração dos Direitos Humanos, mas também cabe-nos diferenciar o direito dos autores do direito das editoras.O interesse público do privado.Cercear a reprodução de obras já esgotadas, impor preços não condizentes com a realidade econômica do país e criminalizar estudantes e professores pela tentativa de distribuir e compartilhar conhecimento não são atitudes condizentes com uma perspectiva de democratização da Educação. O setor editorial é muito beneficiado por recursos públicos,seja por meio de imunidade de tributos e não incidência de contribuições, seja pelo financiamento direto na produção de conteúdos, com o pagamento de cientistas ou bolsistas em regime de dedicação integral seja pelo financiamento de editoras universitárias públicas. Se faz necessário portanto uma contrapartida para a sociedade que o financia.

Cabe ao poder público garantir a contrapartida para a sociedade, através de meios legais, cada vez mais claros e coerentes com a realidade. O processo de Reforma da atual Lei dos Direitos Autorais (9610/98), que deve entrar em fase de consulta pública ainda este mês, é uma oportunidade para que as mudanças necessárias sejam colocadas, de forma a garantir que as demandas da sociedade sejam ouvidas. A livre reprodução das obras, sem restrições de tamanho, autor ou editor, para fins educacionais, deve ser conquistada e garantida nesse processo.

A construção de uma sociedade mais justa e fraterna passa pela garantia do acesso e da difusão dos conhecimentos didáticos e científicos, pelo reconhecimento da Educação como um direito de todos e dever do Estado e do entendimento da Cultura como elemento transversal nesse processo.

Eleonora Rigotti
Estudante de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo
Centro e Circuito Universitário de Cultura e Arte da UNE





As muitas faces de uma cidade

24 04 2010

texto por Adriana Facina (antropóloga, professora de História na UFF e coordenadora do Observatório da Indústria Cultural – Oicult)  / Fotos por Ratão Diniz

Quando vi o documentário “As Muitas Faces de Uma Cidade”, de Danilo Georges e Mano Zeu, pela primeira vez na semana passada, na cópia que eles me enviaram pelo correio, eu estava sem luz em casa, ilhada, mas ainda sem saber exatamente o que havia acontecido em minha cidade, Niterói. A bateria do computador acabou antes do fim do filme e tive de esperar até o dia seguinte para terminar de assisti-lo. Quando a luz voltou, enquanto eu ouvia as notícias sobre os mortos e desabrigados na televisão, via na tela do computador o trecho em que eram mostradas as enchentes e as pessoas que perdiam tudo nas periferias de Foz do Iguaçu. As mesmas histórias em cenários diferentes. Um desespero me invadiu a princípio, um sentimento de revolta impotente, uma raiva.

Assista ao trailer do documentário:

grafite na Rocinha retratando a história da favela. Foto por Ratão Diniz

Mas, após desespero, me veio uma ponta de esperança de que essas semelhanças possam ser a raiz para a construção de um novo mundo a ser erguido pelos oprimidos, pelos pobres, pretos, favelados, com sua força de sempre resistir e reconstruir, sua cultura, sua fé na vida. Aliás, se tem uma coisa que é tipicamente favelada é a fé na vida, que vem daquela certeza que se adquire quando se sobrevive a um sofrimento muito grande: eu sobrevivo, “já passei por quase tudo nessa vida”, como diria Zeca Pagodinho e, por isso, não tenho medo de “deixar a vida me levar”.

Crianças brincam de plantar bananeira. Foto por Ratão Diniz

No Rio, a reação imediata das autoridades públicas foi culpabilizar os pobres. Usando a desgraça alheia para impor a agenda das remoções almejadas pela especulação imobiliária, o prefeito Eduardo Paes lançou decreto permitindo o uso de força policial para remover moradores de áreas de risco, o que abrange quase toda a cidade. Anunciou ainda a remoção imediata de uma das favelas mais tradicionais da cidade, o Morro dos Prazeres, localizado em região de grande valor imobiliário, e de mais uma dezena de outras a curto prazo. O governador Sérgio Cabral, o mesmo que acusou as mães da favela da Rocinha de serem fábricas de marginais, disse que as pessoas tem de se convencer a não construir moradias nas encostas e ainda culpou aqueles que foram contra os muros que ele mandou erguer para cercar as favelas e impedir sua expansão.

mutirão de Grafite realizado na favela da Divisa, dia 20 de novembro. Costa Barros, Rio de Janeiro, RJ. Alguém se arrisca a dizer que a arte da favela grafite não é arte?. Foto por Ratão Diniz

Na minha cidade, onde até o momento foram encontrados mais de 150 corpos e há milhares de desabrigados, o prefeito e seu secretário de obras, fiéis escudeiros de uma especulação imobiliária irrefreada que há anos vem depredando a cidade, também apontaram seus dedos em direção daqueles que morreram ou perderam tudo: suas casas, seus documentos, seus entes queridos, sua história.

criança no morro do alemão. Foto por Ratão DinizTalvez o impacto dessa reação daqueles que deveriam ser os primeiros a demonstrarem sua solidariedade às vítimas seja tão profundo e de longo prazo quanto as mortes e toda a devastação que suas sucessivas administrações causaram. Isso porque suas declarações explicitaram e legitimaram algo que vinha se impondo na surdina e sem alarde e, agora, com a máscara de um cinismo que há muito não se via: a imposição de um modelo de cidade que não considera a favela como território cidadão. Mal a ser extirpado ou empurrado para fora do mapa das áreas interessantes para a especulação imobiliária, a favela volta a ser alvo das antigas políticas de remoção que desconsideram algo que o documentário afirma, bem como a cultura que brota desses territórios: Favela é cidade!

Como diz a música do Rappa, o Rio de Janeiro todo é uma favela. Podemos dizer que o Brasil todo é uma favela e, em breve tempo, na visão de Mike Davis, autor do livro Planeta Favela, a maior parte da população mundial será formada por favelados.

Além de um crime contra os direitos humanos, um absurdo constitucional, um abuso de poder político e econômico, a remoção é também um atentado cultural. Como o documentário prova, as favelas e perferias são, e não é de hoje, os locais de onde surgem manifestações culturais potentes e que traduzem na forma de arte experiências coletivas de vida, de resistência, de formas de organização social, de valores como a solidariedade (que se expressa, por ex., nos mutirões. Agora mesmo na tragédia, os bombeiros reconhecem que a atuação dos moradores na remoção das vítimas dos deslizamentos de terra foi fundamental). Da favela nasce o samba, o hip hop, o funk, o grafite, o reggae, o break. Na favela se abrigou o jongo, bem como todos os batuques negros perseguidos secularmente e que assim chegaram ao século XXI. As favelas pulsam, fervilham, cheias de vida gerada por aqueles que vivem todo o tempo sob ameaça: seja da polícia, do descaso dos governantes, de políticas públicas que vêm essas áreas como laboratórios para o urbanismo, para a segurança pública etc. Favela é cultura!

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A culpa é de São Pedro?

13 04 2010

“É mesmo um caso de amor, desses que ninguém destrói, Jorge Roberto Silveira e o povo de Niterói” – jingle de campanha de Jorge Roberto Silveira à prefeitura de Niterói.

Por Flavia Villa Verde

Nascida e criada em Niterói, foi muito duro pra mim ter vivenciado essa última semana. A chuva que deixou o Estado do Rio de Janeiro davastado teve a cidade de Niterói como uma de suas principais vítimas. Obviamente isso não foi uma implicancia de São Pedro com a cidade mas sim um descuido total do Jorge Roberto Silveira que há alguns anos é o prefeito de Niterói. Depois de alguns dias “ilhada” na Região Oceânica resolvi escrever esse texto como um desabafo.

Fiquei pensando em como a máquina de captura é eficiente, pricipalmente depois de assistir o Fantástico deste domingo. O programa mostrou durante um tempo significativo cenas de favelas que foram completamente soterradas e as equipes de resgates nesses locais. Depoimentos de pessoas que perderam suas casas, familiares, amigos e histórias fizeram lágrimas rolarem do meu rosto de maneira desenfreada. E é exatamente por isso que eu afirmo que a captura é eficiente. Em nenhum momento da reportagem foi noticiado o que realmente importa: porque essa chuva foi violenta? Quais foram as políticas públicas que foram ignoradas e propiciaram essa tragédia? Porque só filmaram as áreas de risco da população pobre? Quais serão as medidas adotadas agora para essas tantas famílias que estão sem suas casas? Usar o sofrimento humano para tocar as pessoas (comercializando a pobreza) e a partir disso desviar as perguntas essenciais é uma violência tão cruel quanto a força das águas que deixaram o Rio de Janeiro aos pedaços.

A limpa nas favelas é um tema que vem de outros carnavais, ou melhor, de outros jogos esportivos. A chacina ocorrida no Complexo do Alemão em julho 2007, durante o governo do Sérgio Cabral, teve como desculpa a segurança para os jogos pan americanos. Apesar do apoio da mídia dominante e de grande parte da população, esse ato teve como resposta manifestações de repúdio contra essas ações. Com os jogos Olímpicos a caminho foi preciso pensar em novas formas de limpezas (poderia falar das UPP´s mas isso tiraria o foco da onde quero chegar) e de desculpas para as mesmas. Neste sentido parece que as chuvas vieram a calhar, elas estão sendo o evento que precisava para legitimar o extermínio total das favelas. Sou uma pessoa a favor da vida e não nego a necessidade da retirada de famílias de áreas de risco. O que me deixou surpresa foi perceber que no mapeamento das áreas de risco só haviam favelas. E as áreas nobres, porém também de risco, em São Conrado? E as grandes casas da Estrada Froz de Niterói? Repito, não estou negligenciando aqui a necessidade de remoção de certas famílias de suas casas mas acho que devemos pensar cuidadosamente para que não haja uma nova forma para um mesmo extermínio.

Outro ponto que pensei foi sobre as assistências que as autoridades estão dando as famílias que estão sendo removidas. Isto porque, com a ajuda da mídia dominante, mais uma vez, está se implantando a idéia de que os pobres não querem sair de suas casa mesmo sabendo que estas estão em áreas de risco, logo a culpa é deles.  Em Niterói e em Maricá os prefeitos abriram escolas e outros espaços públicos para servirem de alojamentos como medida emergencial. No Rio, Eduardo Paes disponibilizou para algumas famílias uma bolsa de 400 reais durante um ano para cobrir o aluguel de suas moradias (gostaria de saber onde encontrar aluguel a esse valor no Rio de Janeiro). Mais uma vez a população pobre fica vulnerável ao assistencialismo enquanto deveriam estar amparados por políticas públicas. Essa é uma história antiga e que se repete: 1888, a abolição da escravatura é uma data importante marcada por lutas e resistências. Mas também foi marcada por um descaso com os escravos que foram soltos pelas ruas sem amparos de políticas públicas inalgurando no Brasil uma significativa população de rua e também instituições e estratégias de esconder/eliminar essa população.

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Tragédia? Não para o capital e seus cínicos representantes

10 04 2010

Por Marcelo Badaró, orginalmente publicado no Fazendo Media

Moro entre Niterói e Santa Teresa e escrevo quando muitos de meus vizinhos nos dois locais não tem mais onde morar, depois de três dias de chuvas que castigam o Grande Rio. Muitos outros não sobreviveram. Somente no Morro do Bumba, em Niterói, a estimativa é de que 200 pessoas possam ter morrido soterradas.

Estimativas, não dados precisos, porque aquelas pessoas que moravam na encosta de um antigo aterro sanitário são realmente tratadas pelo Estado como resíduos urbanos. Não há cadastramento da área para precisar o número de casas e pessoas atingidas. Mas o prefeito da cidade, o Sr. Jorge Roberto da Silveira (PDT), afirmou na véspera desse desabamento, quando o número de vítimas em Niterói já ultrapassava 60 pessoas, que o número de casas em áreas de risco na cidade era muito pequeno para justificar obras de contenção de encostas muito caras, sendo mais barato remover os moradores dessas áreas. Nada a estranhar, partindo de um prefeito que tomou como prioridade asfaltar as ruas da Zona Sul (sem as devidas obras de drenagem) e construir torres panorâmicas, mas que destinou no Orçamento Municipal de 2010 apenas 50 mil reais para Obras de redução de risco a desabamentos e escorregamentos de encostas, quando gasta mais de 2 milhões por ano somente com o custeio de um Conselho Consultivo, no qual reduz os riscos de amigos e correligionários com uma polpuda sinecura, conforme denunciou o vereador Renatinho (PSOL).

Para os trabalhadores e trabalhadoras mais pauperizados, que só encontraram aquelas encostas para morar, a solução “mais barata” é a remoção. Nada se diz porém, das ocupações de outras encostas, tão ou mais irregulares e também sujeitas a deslizamentos de terra, como ocorreu na Estrada Fróes, área “nobre” para a especulação imobiliária da cidade, que há poucos anos conquistou concessões da Prefeitura para construir um imenso condomínio de mansões e prédios de luxo em local que deveria ser destinado à preservação ambiental.

Remoção! é, aliás, a palavra de ordem. O governador Sérgio Cabral (PMDB), ao lado do presidente Lula da Silva (PT) e com sua aprovação apressou-se a definir os responsáveis pelas mortes: os moradores das favelas cariocas, que teimam em construir em áreas de risco. Por isso, afirmou a correção de sua proposta de construção de muros “ecológicos” de contenção (complementados, é claro, pelas placas de “isolamento acústico”). Tais instrumentos, passo adiantado para converter favelas e áreas periféricas de guetos, que já são, em campos de concentração, para mais eficiência na ação dos caveirões e UPPs (todos “pacificadores”), agora são apresentados como solução para o problema das chuvas. Ao invés de urbanização das favelas, regularização do direito ao solo, construção de moradias decentes e contenção das encostas, a “contenção” das pessoas, pelos muros e armas. E se remoção é a solução, Cabral também anunciou que a Polícia Militar estava a disposição de todos os prefeitos para efetivar essa política.

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(*) Marcelo Badaró Mattos é professor de história da UFF.





Chuvas no Rio: nem tudo vale a pena

7 04 2010

Por Paulo Piramba

deslizamento atinge morro dos prazeres.

Os números realmente impressionam. Em menos de 12 horas choveu na cidade do Rio de Janeiro, e em parte de sua Região Metropolitana, o equivalente a dois meses de chuva. Uma média de 270mm, enquanto o índice normal para o mês de abril é de 140mm. Até o momento em que escrevo, já foram confirmadas pelo menos 95 mortes.

A causa mais imediata para esse extremo climático de gigantesca proporção é a combinação de uma frente fria, com o contraste entre o ar polar e o ar quente tropical, aliado à temperatura do mar, 2ºC mais quente do que o normal. Além disso, a maré alta contribuiu para que o alagamento das áreas urbanas do Rio, já muito impermeabilizadas, não escoasse.

veja o vídeo abaixo, mostrando a enchete em Barra de Guaritiba, zona oeste do Rio de Janeiro:

Além do triste saldo de mortes, quase todas provocadas por deslizamentos de encostas, o caos se instalou na cidade. O alagamento das vias impediu a passagem dos veículos, fazendo com que milhares de pessoas não chegassem em casa. Muitos dormiram na rua essa noite. Nessa terça-feira, a cidade vive um feriado forçado, já que escolas, universidades e poder judiciário suspenderam suas atividades. Mas muitos bancos, lojas e escritórios de grandes e pequenas empresas também não funcionam, já que seus empregados e clientes não têm como se locomover. As já normalmente ineficientes empresas privadas de fornecimento de energia contabilizam milhares de casas sem luz desde a noite de segunda.

O prefeito do Rio coloca a culpa do colapso da cidade “nas fortes chuvas, na maré alta, na ocupação irregular das encostas e nas pessoas que insistem em morar nelas”. Não deixa de alfinetar os “demagogos de plantão” que, segundo ele, “criticam os reassentamentos de moradores de áreas de risco”. E ainda dá “nota zero para o preparo da cidade para o temporal”.

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* Paulo Piramba, 55 anos, é membro da Rede Ecossocialista Internacional e do Instituto Búzios.

Fonte: Agência Petroleira de Notícias





E os muros são erguidos nas favelas!!!

5 04 2010

Seguindo a política de exclusão e segregragação dos pobres no estado do Rio de Janeiro, o governo constrói muros ao longo da linha vermelha. Sob o argumento de isolamento acústico dos barulhos dos carros, as barreiras servem para tornar “invisível”  a pobreza no Rio de Janeiro principalmente ao turista que chega do aeroporto Galeão e vai para o centro. Leia o relato da jornalista Gizele Martins, moradora da Maré, editora do jornal local O Cidadão e colaboradora da revista Vírus Planetário:

Texto e foto por Gizele Martins

Gente, vocês estão sabendo do novo Muro?
Não!?
Vou dizer para vocês o que ele significa:
Prestem atenção: não são quaisquer murinhos não!!! Sabe por qual motivo!?
É porque segundo os nossos governantes, nós moradores de favela somos tão violentos, tão sujos, tão fedidos que merecemos um muro de concreto e aço…é isso mesmo, concreto e aço!
A nossa sensação atrás dos muros é a de perigo constante, somos perigosos, somos violentos, e por isso é preciso que tirem de mim a educação pública, a segurança pública de qualidade, a saúde, a moradia e mesmo sem isso tudo…e já que ainda resistimos, insistimos em viver, querem nos murar, nos esconder, nos abafar!!!
É isso mesmo, os representantes governamentais da nossa cidade maravilhosa querem e já estão murando as favelas localizadas nas principais vias expressas da cidade. Quer saber mais sobre este tal muro de alto proteção dos humanos que, coitados, são obrigados a passar pelas beiradas dessas favelas!?
Olhe a reportagem que saiu no RJ TV do dia 06/03/10…Clique aqui para ler