As muitas faces de uma cidade

24 04 2010

texto por Adriana Facina (antropóloga, professora de História na UFF e coordenadora do Observatório da Indústria Cultural – Oicult)  / Fotos por Ratão Diniz

Quando vi o documentário “As Muitas Faces de Uma Cidade”, de Danilo Georges e Mano Zeu, pela primeira vez na semana passada, na cópia que eles me enviaram pelo correio, eu estava sem luz em casa, ilhada, mas ainda sem saber exatamente o que havia acontecido em minha cidade, Niterói. A bateria do computador acabou antes do fim do filme e tive de esperar até o dia seguinte para terminar de assisti-lo. Quando a luz voltou, enquanto eu ouvia as notícias sobre os mortos e desabrigados na televisão, via na tela do computador o trecho em que eram mostradas as enchentes e as pessoas que perdiam tudo nas periferias de Foz do Iguaçu. As mesmas histórias em cenários diferentes. Um desespero me invadiu a princípio, um sentimento de revolta impotente, uma raiva.

Assista ao trailer do documentário:

grafite na Rocinha retratando a história da favela. Foto por Ratão Diniz

Mas, após desespero, me veio uma ponta de esperança de que essas semelhanças possam ser a raiz para a construção de um novo mundo a ser erguido pelos oprimidos, pelos pobres, pretos, favelados, com sua força de sempre resistir e reconstruir, sua cultura, sua fé na vida. Aliás, se tem uma coisa que é tipicamente favelada é a fé na vida, que vem daquela certeza que se adquire quando se sobrevive a um sofrimento muito grande: eu sobrevivo, “já passei por quase tudo nessa vida”, como diria Zeca Pagodinho e, por isso, não tenho medo de “deixar a vida me levar”.

Crianças brincam de plantar bananeira. Foto por Ratão Diniz

No Rio, a reação imediata das autoridades públicas foi culpabilizar os pobres. Usando a desgraça alheia para impor a agenda das remoções almejadas pela especulação imobiliária, o prefeito Eduardo Paes lançou decreto permitindo o uso de força policial para remover moradores de áreas de risco, o que abrange quase toda a cidade. Anunciou ainda a remoção imediata de uma das favelas mais tradicionais da cidade, o Morro dos Prazeres, localizado em região de grande valor imobiliário, e de mais uma dezena de outras a curto prazo. O governador Sérgio Cabral, o mesmo que acusou as mães da favela da Rocinha de serem fábricas de marginais, disse que as pessoas tem de se convencer a não construir moradias nas encostas e ainda culpou aqueles que foram contra os muros que ele mandou erguer para cercar as favelas e impedir sua expansão.

mutirão de Grafite realizado na favela da Divisa, dia 20 de novembro. Costa Barros, Rio de Janeiro, RJ. Alguém se arrisca a dizer que a arte da favela grafite não é arte?. Foto por Ratão Diniz

Na minha cidade, onde até o momento foram encontrados mais de 150 corpos e há milhares de desabrigados, o prefeito e seu secretário de obras, fiéis escudeiros de uma especulação imobiliária irrefreada que há anos vem depredando a cidade, também apontaram seus dedos em direção daqueles que morreram ou perderam tudo: suas casas, seus documentos, seus entes queridos, sua história.

criança no morro do alemão. Foto por Ratão DinizTalvez o impacto dessa reação daqueles que deveriam ser os primeiros a demonstrarem sua solidariedade às vítimas seja tão profundo e de longo prazo quanto as mortes e toda a devastação que suas sucessivas administrações causaram. Isso porque suas declarações explicitaram e legitimaram algo que vinha se impondo na surdina e sem alarde e, agora, com a máscara de um cinismo que há muito não se via: a imposição de um modelo de cidade que não considera a favela como território cidadão. Mal a ser extirpado ou empurrado para fora do mapa das áreas interessantes para a especulação imobiliária, a favela volta a ser alvo das antigas políticas de remoção que desconsideram algo que o documentário afirma, bem como a cultura que brota desses territórios: Favela é cidade!

Como diz a música do Rappa, o Rio de Janeiro todo é uma favela. Podemos dizer que o Brasil todo é uma favela e, em breve tempo, na visão de Mike Davis, autor do livro Planeta Favela, a maior parte da população mundial será formada por favelados.

Além de um crime contra os direitos humanos, um absurdo constitucional, um abuso de poder político e econômico, a remoção é também um atentado cultural. Como o documentário prova, as favelas e perferias são, e não é de hoje, os locais de onde surgem manifestações culturais potentes e que traduzem na forma de arte experiências coletivas de vida, de resistência, de formas de organização social, de valores como a solidariedade (que se expressa, por ex., nos mutirões. Agora mesmo na tragédia, os bombeiros reconhecem que a atuação dos moradores na remoção das vítimas dos deslizamentos de terra foi fundamental). Da favela nasce o samba, o hip hop, o funk, o grafite, o reggae, o break. Na favela se abrigou o jongo, bem como todos os batuques negros perseguidos secularmente e que assim chegaram ao século XXI. As favelas pulsam, fervilham, cheias de vida gerada por aqueles que vivem todo o tempo sob ameaça: seja da polícia, do descaso dos governantes, de políticas públicas que vêm essas áreas como laboratórios para o urbanismo, para a segurança pública etc. Favela é cultura!

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“Hasta la Victoria siempre!”

9 10 2009

O LEGADO DE CHE GUEVARA

Por João Pedro Stédile *

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Em 8 de outubro cumpre-se o aniversário do assassinato de Che Guevara pelo exército boliviano. Após sua prisão, em 8 de outubro de 1967, foi executado friamente, por ordens da CIA. Seria ”muito perigoso” mantê-lo vivo, pois poderia gerar ainda mais revoltas populares em todo o continente.

Decididamente, a contribuição de Che, por suas idéias e exemplo, não se resume a teses de estratégias militares ou de tomada de poder político. Nem devemos vê-lo como um super-homem que defendia todos os injustiçados e tampouco exorcizá-lo, reduzindo-o a um mito.

Analisando sua obra falada, escrita e vivida, podemos identificar em toda a trajetória um profundo humanismo. O ser humano era o centro de todas as suas preocupações. Isso pode-se ver no jovem Che, retratado de forma brilhante por Walter Salles no filme Diários de Motocicleta, até seus últimos dias nas montanhas da Bolívia, com o cuidado que tinha com seus companheiros de guerrilha.

SculptureCheGuevaraCubaA indignação contra qualquer injustiça social, em qualquer parte do mundo, escreveu ele a uma parente distante, seria o que mais o motivava a lutar. O espírito de sacrifício, não medindo esforços em quaisquer circunstâncias, não se resumiu às ações militares, mas também e sobretudo no exemplo prático. Mesmo como ministro de Estado, dirigente da Revolução Cubana, fazia trabalho solidário na construção de moradias populares, no corte da cana, como um cidadão comum.

Che praticou como ninguém a máxima de ser o primeiro no trabalho e o último no lazer. Defendia com suas teses e prática o princípio de que os problemas do povo somente se resolveriam se todo o povo se envolvesse, com trabalho e dedicação. Ou seja, uma revolução social se caracterizava fundamentalmente pelo fato de o povo assumir seu próprio destino, participar de todas as decisões políticas da sociedade.

No outdoor: "Nos deixou seu exemplo!"

No outdoor: "Nos deixou seu exemplo!"

Sempre defendeu a integração completa dos dirigentes com a população. Evitando populismos demagógicos. E assim mesclava a força das massas organizadas com o papel dos dirigentes, dos militantes, praticando aquilo que Gramsci já havia discorrido como a função do intelectual orgânico coletivo.

Teve uma vida simples e despojada. Nunca se apegou a bens materiais. Denunciava o fetiche do consumismo, defendia com ardor a necessidade de elevar permanentemente o nível de conhecimento e de cultura de todo o povo. Por isso, Cuba foi o primeiro país a eliminar o analfabetismo e, na América Latina, a alcançar o maior índice de ensino superior. O conhecimento e a cultura eram para ele os principais valores e bens a serem cultivados. Daí também, dentro do processo revolucionário cubano, era quem mais ajudava a organizar a formação de militantes e quadros. Uma formação não apenas baseada em cursinhos de teoria clássica, mas mesclando sempre a teoria com a necessária prática cotidiana.

Acreditar no Che, reverenciar o Che hoje é acima de tudo cultivar esses valores da prática revolucionária que ele nos deixou como legado.

A burguesia queria matar o Che. Levou seu corpo, mas imortalizou seu exemplo. Che vive! Viva o Che!

che_guevara

(*) João Pedro Stédile é membro da Coordenação Nacional do MST, da Via Campesina e do Movimento Consulta Popular.

(**) Artigo originalmente publicado na revista Caros Amigos.





Cuide de mim, que eu não cuido de você.

23 10 2008

Por Paulo Abelha

Semana passada, ainda era bem cedo quando eu saltei do ônibus pra ir ao meu estágio. Já havia acumulado dois mal humores, um do cobrador que ficou de cara feia porque eu não tinha 10 centavos e outro do cara que sentou ao meu lado e, aparentemente, não se contentava em ter espaço para apenas duas bolas. Suas pernas tinham que ocupar o corredor e metade do meu assento.

Logo que saltei, vi uma senhora jogar um maço de cigarro no chão, estando a um metro da lixeira da prefeitura. Não agüentei de curiosidade e perguntei:

Com licença, por que a senhora não jogou na lixeira?

Meu filho, cuida da sua vida, cuida.

De certa forma pude concordar, porque se depender dela pra cuidar da minha…

Talvez a senhora estivesse com aquele mal humor de quem abre a geladeira e não tem nada de gostoso pra tomar de café, ou vindo num ônibus junto com algum primo do boludo que estava do meu lado (Sim, os boludos têm primos! Há inclusive uma linha da família que, no ônibus lotado, gosta muito de pedir licença pra então tomar o espaço no qual você estava em pé antes. Coisa de família…).

Comecei a perceber como as pessoas julgam seus atos como desconexos com a realidade dos outros, mesmo com tanta tecnologia permitindo a interação. Acabado meu devaneio, voltei à rotina normal e fui comprar alguns pães de queijo antes de começar o dia de trabalho.

Já de tarde, peguei o metrô Barra pra Glória. Era a segunda vez em anos que eu usava o querido trem dos cariocas. Como bom teimoso, não perguntei informações e na estação Siqueira Campos peguei sentido Zona Sul. O que gerou algumas discussões com amigos sobre a geografia da cidade, e certamente o pensamento em algumas pessoas de que eu devo gostar de passear por Copacabana.

Após o meu pequeno e ligeiro tour por Cantagalo, consegui me colocar em direção à Glória. O metrô começou a encher e eu dei lugar a uma senhora muito idosa que tinha acabado de entrar, não recebi nem um obrigado. Ao invés de acumular um terceiro mau humor, isso me fez pensar: ela podia ter agradecido, mas não é por não ter feito isso que eu deveria deixar de ter dado meu lugar.

Eu estava cuidando da vida dela, como o fiz com a senhora do maço de cigarro, mas elas não estavam cuidando da minha. E não é isso que acontece quando nos esforçamos tanto pra escolher e debater em favor de um político?

Pelo menos, no segundo caso ganhamos um belíssimo obrigado! Que, mesmo guardando na geladeira vazia do nosso café da manhã, dura no máximo o mês de Outubro.