Sétima edição da Vírus Planetário

7 08 2010

Finalmente, lançamos a sétima edição da revista Vírus Planetário. Tivemos diversos problemas, que já estão sendo solucionados, e nos reestruturamos e caminhamos para manter nossa periodicidade. Pedimos desculpas pelo longo intervalo sem Vírus, mas a partir de hoje estaremos em dia com você, leitor, seja nas edições da revista, seja nas atualizações do site.

Convite à surpresa

Nessa edição, trazemos duas entrevistas inusitadas para uma revista de esquerda. Jean Wyllys e ForFun. O jornalista e o grupo de rock que tiveram uma imagem consolidada como pessoas pops, vazias e sem opinião, provam que mais uma vez a imprensa grande ajuda a formar conceitos distorcidos. Além disso, também estreamos nossa seção feita pela equipe de Brasília com reportagem sobre a especulação imobiliária no Noroeste da capital federal. Tema também debatido pela reportagem sobre a tragédia das chuvas do estado do Rio, dois meses após as enchentes, trouxemos a situação em que os moradores das favelas atingidas se encontram e o debate sobre planejamento urbano e segregação
sócio-espacial.
Tudo isso e mais artigos, humor, charges e conteúdo contra-hegemônico, você encontra na sétima edição da Vírus Planetário.

Tá esperando o quê? Baixe AQUI ou visualize aqui a sétima edição digital. Não deixe de comprar seu exemplar a 2 reais nos locais de venda e apoiar a Vírus. Você confere aqui onde pode comprar seu exemplar impresso.





Empresa Águas de Niterói comete crime hediondo

13 07 2010

Por Marcelo Salles, do Fazendo Media

Eu acuso a empresa Águas de Niterói, que opera no Rio de Janeiro, de cometer um crime hediondo. Um crime contra a vida. E me sinto muito à vontade para fazer essa denúncia, mesmo que a vítima seja a minha mãe. Por um motivo muito simples: eu faria a mesma coisa por qualquer outra pessoa que estivesse nessa situação, aliás, como tenho feito desde que fiz o seguinte juramento em troca do diploma de Jornalista profissional: “A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade”.

O fato é que a empresa privada ÁGUAS DE NITERÓI cortou a água na casa de minha mãe. Motivo: ela se recusou a pagar uma conta superfaturada emitida pela empresa, no valor de 800 reais. Quando essa conta absurda chegou, ela não pegou o telefone. Ela foi até a empresa. Aliás, ela foi duas vezes. Lá chegando, explicou que essa conta estava errada, porque o valor médio gasto por mês é 100 reais. A empresa reconheceu o erro e refez a conta: 500 reais, o que continuou muito acima do valor médio. Minha mãe se recusou a pagar novamente, sobretudo porque o motivo do aumento da conta foi um vazamento numa obra realizada pela própria empresa. A ÁGUAS DE NITERÓI disse que entraria em contato, por telefone. Não entrou. Em vez disso, mandou um aviso por escrito, com a ameaça de corte.

Minha mãe se manteve firme e acionou a Justiça. Apesar do câncer que a consome há um ano e meio, ela não se vergou diante das ameças dessa empresa covarde. (pra quem não sabe, minha mãe tem câncer no pulmão com metástase no cérebro. Ela fez duas cirurgias no ano passado, mas infelizmente o câncer voltou este ano: cinco nódulos nos pulmões).

Nesta sexta-feira, dia 9 de julho de 2010, a empresa ÁGUAS DE NITERÓI enviou os algozes, que cortaram o fornecimento de água. Importante: minha mãe avisou à empresa que estava em meio a um tratamento de câncer. E enquanto os funcionários da empresa estavam em sua casa, cortando o fornecimento do bem mais elementar para a vida, a água, minha mãe estava fazendo mais uma sessão de quimioterapia. Ela lutando pela vida, a empresa cortando o acesso à água. Está tudo documentado, temos o registro médico e o laudo do oncologista. Imaginem vocês. Para uma pessoa com a saúde em perfeito estado já é um tanto complicado imaginar a vida sem água. E uma pessoa com câncer, que tem uma série de restrições e necessidades especiais! A legislação brasileira garante a isenção de diversos impostos para pacientes com essa doença, como Imposto de Renda, IPVA, IPTU, entre outros. Está mais do que evidente que o fornecimento de água jamais poderia ser interrompido.

Hoje, sábado, por volta das 16h30, telefonei na ÁGUAS DE NITERÓI. Falei com uma funcionária que se identificou como Simone Diniz e a ligação durou entre 15 ou 20 minutos. Expliquei a ela toda a história, inclusive que a empresa havia desligado a água da casa de uma pessoa que faz tratamento para câncer. Que o desligamento ocorreu no mesmo dia da sessão de quimioterapia. Disse e repeti que minha mãe quer pagar a conta, no valor justo, mas que isso tem de ser feito com a água ligada. Pedi três vezes para a empresa religar a água, o que foi negado. O número do protocolo informado foi 303964. Ela disse que não pode fazer nada até que a conta seja paga.

Eu gostaria muito de saber se a ÁGUAS DE NITERÓI vai pagar pelos tranquilizantes que estão sendo adicionados às inúmeras drogas para combater o câncer que minha mãe está sendo obrigada a tomar. E também se essa empresa poderá ser responsabilizada judicialmente caso o estado de saúde de minha mãe venha a piorar por conta de todo o estresse que ela vem passando com as ameaças e o corte de fornecimento de água.

Caros amigos, queridas amigas, esse é um dos momentos em que venho pedir a ajuda de vocês. Repassem essa mensagem, espalhem pelo twitter, telefonem para a empresa, digam aos funcionários o tamanho do crime que está sendo cometido. Para nós o mais importante é que o fornecimento de água seja restabelecido imediatamente. Se vocês pressionarem, talvez eles se deem conta do erro e religuem a água, principal elemento da vida. Vida, algo que parece não estar entre as prioridades das empresas privadas.

O telefone da ÁGUAS DE NITERÓI é 0800 723 1222.

O telefone da AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS (empresa que regula as fornecedoras no país): 61.2109-5400.

Muito obrigado,
Marcelo Salles






Favelas unidas para reivindicar direitos

16 04 2010
Os moradores das comunidades da Caixa D’Água, 340, Mackenzie, Caramujo, Morro do Estado, Bonfim, Grota, Chacará, Boa Vista, Bumba, Garganta, Arroz e Morro do Céu, entre outras localidades de Niterói, estão revoltados com o descaso da prefeitura com a cidade.
Com a casa ameaçada de vir abaixo desde as chuvas da semana passada, a jovem Luane Bento dos Santos, de 26 anos, cruzou Niterói inteira de ônibus nesta quinta-feira (15/4) para lutar por seus direitos. Saiu da Garganta, em Pendotiba, para participar de ato que tomou as ruas do Centro de Niterói, organizado pelo recém-criado Comitê de Solidariedade e Mobilização das Favelas da cidade e apoiado por diversas organizações, sindicatos e movimentos sociais. De luto pelos mais de 170 mortos na cidade, mas com muita disposição para a luta, Luane se uniu aos cerca de 2 mil manifestantes que da prefeitura antiga até a nova sede da administração municipal sairam em passeata para cobrar uma política pública efetiva de moradia para a população.

O ato, que começou às 16h e reuniu moradores de 15 favelas de Niterói, demonstrou uma força até então inédita do movimento popular da cidade: diante da pressão, o secretário de governo da prefeitura, Michel Saad, entre outras autoridades, recebeu no seu gabinete dez representantes do Comitê das Favelas, que apresentaram a sua pauta de reivindicações, entre as quais a de que a moradia se torne uma política prioritária e que, emergencialmente, seja adotado um valor mais justo para o Aluguel Social, de pelo menos R$ 600. E, depois de mais de duas horas de reunião, a autoridade assumiu o compromisso de confirmar, até esta sexta-feira (16/4), a realização de uma reunião do prefeito Jorge Roberto Silveira com o Comitê, a ser realizada na próxima terça-feira (20/4), com base na pauta de reivindicações do Comitê. Se este não for ouvido, é certo, segundo os organizadores, que haverá novo ato na cidade em breve e com a meta de levar pelo menos o dobro de manifestantes às ruas.

Em frente da sede antiga da prefeitura, durante a concentração para o ato, o som de violinos da Orquestra de Cordas da Grota do Surucucu — que tem alguns de seus integrantes desabrigados — encheu de emoção os manifestantes antes do início da caminhada até a prefeitura nova, onde as portas foram encontradas fechadas e vigiadas por guardas municipais. E o expediente, antecipado extraordinariamente das habituais 19h para 15h. Parentes de vítimas e desabrigados depositaram velas, cruzes e coroas de flores na escadaria do prédio, toda ocupada. Foi preciso uma negociação prévia para garantir a entrada dos representantes do Comitê e o acesso da imprensa ao prédio e ao resultado da reunião, que acabou por volta das 21h, sobre o destino das mais de 7 mil pessoas ainda desabrigadas e alojadas temporariamente em escolas, clubes, igrejas e casas de parentes.

“Numa cidade abandonada pelo prefeito em favor dos interesses da especulação imobiliária, é muito importante fortalecer essa iniciativa da criação do Comitê das Favelas. E é muito importante respeitar o protagonismo dessas comunidades, em legítima batalha por seus direitos”, disse o deputado estadual Marcelo Freixo, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Alerj. Além dele, o vereador Renatinho, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Niterói, participou do ato. Para Luane, que foi uma entre os escolhidos pelas comunidades para representar o Comitê na reunião, toda essa tragédia mostrou que a cidade não é feita só de asfalto e orla e que os pobres estavam escondidos atrás dos prédios. E ela não pensou duas vezes antes de participar do ato: “As pessoas estão cansadas, mas está na hora de mostrar a cara real de Niterói. Resolvi participar porque não acredito em soluções individuais para a nossa situação, como casas de parentes ou abrigos.  É preciso construir uma luta coletiva por nossos direitos. Vieram ao ato, além de mim, umas vinte pessoas da Garganta, mas vou lutar para mobilizar muito mais gente para essa luta”, explicou Luane, formada em Ciências Sociais e integrante de uma população que ainda deve enfrentar por muito tempo o legado de luto e riscos sociais e ambientais consequentes do descaso do poder público com a infraestrutura e com a população pobre da cidade. A luta de Luane, portanto, e dos moradores das favelas de Niterói promete se estender ainda por muito tempo.

Fonte: Mandato Marcelo Freixo





Tragédia? Não para o capital e seus cínicos representantes

10 04 2010

Por Marcelo Badaró, orginalmente publicado no Fazendo Media

Moro entre Niterói e Santa Teresa e escrevo quando muitos de meus vizinhos nos dois locais não tem mais onde morar, depois de três dias de chuvas que castigam o Grande Rio. Muitos outros não sobreviveram. Somente no Morro do Bumba, em Niterói, a estimativa é de que 200 pessoas possam ter morrido soterradas.

Estimativas, não dados precisos, porque aquelas pessoas que moravam na encosta de um antigo aterro sanitário são realmente tratadas pelo Estado como resíduos urbanos. Não há cadastramento da área para precisar o número de casas e pessoas atingidas. Mas o prefeito da cidade, o Sr. Jorge Roberto da Silveira (PDT), afirmou na véspera desse desabamento, quando o número de vítimas em Niterói já ultrapassava 60 pessoas, que o número de casas em áreas de risco na cidade era muito pequeno para justificar obras de contenção de encostas muito caras, sendo mais barato remover os moradores dessas áreas. Nada a estranhar, partindo de um prefeito que tomou como prioridade asfaltar as ruas da Zona Sul (sem as devidas obras de drenagem) e construir torres panorâmicas, mas que destinou no Orçamento Municipal de 2010 apenas 50 mil reais para Obras de redução de risco a desabamentos e escorregamentos de encostas, quando gasta mais de 2 milhões por ano somente com o custeio de um Conselho Consultivo, no qual reduz os riscos de amigos e correligionários com uma polpuda sinecura, conforme denunciou o vereador Renatinho (PSOL).

Para os trabalhadores e trabalhadoras mais pauperizados, que só encontraram aquelas encostas para morar, a solução “mais barata” é a remoção. Nada se diz porém, das ocupações de outras encostas, tão ou mais irregulares e também sujeitas a deslizamentos de terra, como ocorreu na Estrada Fróes, área “nobre” para a especulação imobiliária da cidade, que há poucos anos conquistou concessões da Prefeitura para construir um imenso condomínio de mansões e prédios de luxo em local que deveria ser destinado à preservação ambiental.

Remoção! é, aliás, a palavra de ordem. O governador Sérgio Cabral (PMDB), ao lado do presidente Lula da Silva (PT) e com sua aprovação apressou-se a definir os responsáveis pelas mortes: os moradores das favelas cariocas, que teimam em construir em áreas de risco. Por isso, afirmou a correção de sua proposta de construção de muros “ecológicos” de contenção (complementados, é claro, pelas placas de “isolamento acústico”). Tais instrumentos, passo adiantado para converter favelas e áreas periféricas de guetos, que já são, em campos de concentração, para mais eficiência na ação dos caveirões e UPPs (todos “pacificadores”), agora são apresentados como solução para o problema das chuvas. Ao invés de urbanização das favelas, regularização do direito ao solo, construção de moradias decentes e contenção das encostas, a “contenção” das pessoas, pelos muros e armas. E se remoção é a solução, Cabral também anunciou que a Polícia Militar estava a disposição de todos os prefeitos para efetivar essa política.

CONTINUA. CLIQUE AQUI PARA LER O ARTIGO COMPLETO

(*) Marcelo Badaró Mattos é professor de história da UFF.





Tornar o Luto uma luta

8 04 2010

A grande mídia, mesmo diante de uma catástrofe jamais vista, após a forte chuva de segunda-feira, culpa os próprios moradores dos morros atingidos em todo o Estado do Rio de Janeiro. A principal política dos governos estadual e municipais (cujo discurso de culpar os moradores de favela encontra eco na mídia grande) é reforçar o choque de ordem e só se preocupar em remover as famílias de suas casas, já que “o solo urbano é propriedade das prefeituras”. Crueldade sem fim e desfaçatez para não admitir a própria ganância e irreponsabilidade com a população. Trazemos aqui o relato de Daniel Nunes, professor do pré do Morro do Estado, na mais castigada cidade do estado pela inundação, Niterói. Estaremos com novas notícias a qualquer momento… Revista Vírus Planetário

Tragédia anunciada... E agora prefeito?

Niterói passa por uma situação calamitosa. Se por um lado setores da cidade sofrem com o grande inconveniente de situações como alagamentos, falta luz e imobilidade, o que já é grave, outras partes possuem milhares de desabrigados (até o momento são mais de 3 mil), centenas de feridos, dezenas de mortos. Além da enorme força da natureza, essa chuva exorbitante demonstrou a gravidade da situação social da cidade.

O socorro foi muito precário, sendo conduzido, durante muito tempo, pelos próprios moradores, e mesmo com a chegada dos bombeiros, a militância solidária da comunidade foi muito necessária. Acompanhei parte do resgate nesta terça-feira junto a Madureira e Tão, dois amigos, que acompanharam tudo desde o início enquanto moradores da favela e dirigentes da Associação de Moradores do Morro do Estado (AMME).

Só não enxerga quem não quer! Existe um abismo social na cidade, que fica ainda mais evidente em situações como as fortes chuvas.

O que os governantes têm dito sobre assunto? Quem mora em situação de risco, mora porque quer; quem mora em situação irregular, assim está por irresponsabilidade própria; os estragos são causados unicamente pela chuva além da média. Tudo mentira! As pessoas moram nesses lugares porque não têm condições de viver em outro lugar, não possuem condições de pagar.

CLIQUE AQUI PARA LER O TEXTO COMPLETO

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Ainda sobre os deslizamentos em Niterói, as lideranças comunitárias de favelas afetadas lançaram nota, que a Vírus Planetário assina embaixo:

Nota de esclarecimento

Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões. Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público.  A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infra-estrutura que poderiam salvar vidas.  As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte.

Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.

Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de obras Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia. Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade.

Nós, favelados, somos parte da cidade e a construímos com nossas mãos e nosso suor. Não podemos ser culpados por sofrermos com décadas de abandono, por sermos vítimas da brutal desigualdade social brasileira e de um modelo urbano excludente. Os que nos culpam, justamente no momento em que mais precisamos de apoio e solidariedade, jamais souberam o que é perder sua casa, seus pertences, sua vida e sua história em situações como a que vivemos agora.

Nossa indignação é ainda maior que nossa tristeza e, em respeito à nossa dor, exigimos o retratamento imediato das autoridades públicas.

Ao invés de declarações que culpam a chuva ou os mortos, queremos o compromisso com políticas públicas que nos respeitem como cidadãos e seres humanos.

Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói

Associação de Moradores do Morro do Estado

Associação de Moradores do Morro da Chácara

SINDSPREV/RJ

SEPE – Niterói

SINTUFF

DCE-UFF

Mandato do vereador Renatinho (PSOL)

Mandato do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL)

Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK)

Movimento Direito pra Quem

Coletivo do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares

Revista Vírus Planetário





Uma excelente reportagem e uma sugestão de pauta

6 01 2010

Por Marcelo Salles, do Fazendo Media

Na noite desta segunda-feira, dia 4, a TV Brasil mostrou que está a fim de produzir e veicular um outro tipo de Jornalismo. Em seu principal telejornal, o Repórter Brasil, a emissora exibiu extensa e corajosa reportagem sobre a tragédia ocorrida em Angra dos Reis, mas com uma grande diferença em relação às empresas comerciais: a especulação imobiliária aparece entre os atores causadores das cinquenta mortes.

Para assistir à reportagem, clique aqui

A TV Brasil foi a campo e entrevistou um vereador da oposição, em Angra, e o deputado estadual Alessandro Molon. Eles criticaram, respectivamente, o desvio de verba da prefeitura municipal, que deveria ser usada na proteção ao meio-ambiente, e o afrouxamento, pelo governador Sérgio Cabral, da legislação que garante a segurança das construções em áreas de encosta. De quebra, o telejornal ainda explicou, didaticamente, como funcionam as autorizações para as intervenções em regiões consideradas de risco.

Enquanto isso, as corporações de mídia culpam a chuva – que não tem assessoria de imprensa e nem verba publicitária. Quem assistiu a esta reportagem do Repórter Brasil não apenas tomou conhecimento de aspectos fundamentais para a compreensão da tragédia em Angra dos Reis. Também entendeu por que é tão importante a existência de veículos de comunicação que não sejam pautados pela lógica comercial, da audiência a qualquer preço.

Novos desastres anunciados

Na última quinzena de 2009, o deputado estadual Marcelo Freixo protagonizou uma discussão importantíssima para o cidadão fluminense, mas que infelizmente ainda não teve grande repercussão nos meios de comunicação (quem sabe a TV Brasil não se interessa?). Trata-se da tentativa de aprovação da lei que amplia a área de proteção do Parque Estadual da Serra da Tiririca – que abrange os municípios de Niterói e Maricá -, cuja votação estava marcada para agosto. A demora, segundo denúncia gravíssima de Marcelo Freixo, ocorre devido a um acordo do prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, com o presidente da Alerj, Jorge Picciani. A maior beneficiária desse acordo é a especulação imobiliária, que em Niterói está concentrada nas mãos de uma empresa privada chamada Patrimóvel.

Em razão de sua luta pela aprovação da  lei (assinada também pelos deputados Rodrigo Neves e Luiz Paulo), Freixo foi xingado de “leviano” por Jorge Roberto num jornal local. Sua resposta, na mesma moeda, foi dada no dia 15 de dezembro, no plenário da Alerj, e publicada no Diário Oficial.

Quem vive em Niterói, como eu vivo há 30 anos, conhece bem os males da especulação imobiliária. Crescimento desordenado; muita gente sem casa, muita casa vazia; preços exorbitantes dos imóveis; um trânsito cada vez pior (já levei 50 minutos para percorrer 8km); problemas graves de distribuição de água e energia; poluição crescente das praias (incluindo uma das mais belas do mundo, a de Itacoatiara, ameaçada pelos diversos espigões que crescem ao seu redor); saneamento básico comprometido.

Se a sociedade não se mobilizar agora, Niterói pode viver uma tragédia de enormes proporções nos próximos anos. Além, é claro, de as tragédias cotidianas citadas no parágrafo anterior continuarem deteriorando, aos poucos e sem divulgação, a vida de milhares de pessoas. Muitas delas devido a esse profundo caso de amor entre o prefeito e a Patrimóvel.